Homestudio: produtores dão dicas de como montar e ganhar dinheiro

Homestudio

A evolução quase geométrica do poder de processamento dos computadores nas últimas três décadas mudou para sempre a forma como trabalham os profissionais de diversas áreas. Uma das que sofreu maior impacto, inegavelmente, é a da produção musical. Se antigamente eram necessários grandes e pesados equipamentos - que custavam dezenas ou centenas de milhares de dólares e estavam disponíveis em poucas salas no mundo -, hoje os estúdios domésticos (o tal do homestudio) estão cheios de softwares que simulam esses efeitos com razoável precisão.

Estúdio, aliás, é outro ambiente que viu sua importância mudar sensivelmente nos últimos anos. Famosas salas de gravação como Abbey Road ou Sun Studios ainda existem, mas grande parte da produção musical atual é feita em casa, muitas vezes com pouco mais do que um computador e alguns periféricos. "Quando eu comecei as coisas eram muito difíceis. Não havia internet nem dinheiro para importar revistas especializadas, era tudo no boca a boca. Eu tive a sorte de contar com bons mentores que não escondiam a informação, não me viam como concorrente", lembra Fernando Azula, músico e produtor que tem no currículo gravações com Alceu Valença, Elba Ramalho, André Rio, Chico César e Xangai, entre outros.

Se adquirir conhecimento era complicado, imagine equipamento? "Um porta estúdio de fita cassete que gravava em quatro canais devia custar uns R$ 5 mil ao preço de hoje. Ninguém tinha grana pra isso. Mas a gente foi evoluindo e toda essa dificuldade nos fez desenvolver um lado criativo e de bom gosto que eu considero mais importante do que qualquer conhecimento técnico", revela.

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Fernando Azula

Um belo dia, Azula descobriu que computadores podiam gravar. "Conheci o Nuendo (sofware de gravação também conhecido como Digital Audio Workstation, ou DAW) e foi como descobrir um mundo novo. Comecei a gravar no PC com uma velha placa de som Sound Blaster, ainda nos anos 90. Depois tive uma Guilhermond e finalmente pude ter equipamentos "de nome", como Apogee, Digidesign e Yamaha e trabalhar com DAWs como Pro Tools e Logic. Hoje está tudo mais fácil, você pode entrar no Youtube e tirar qualquer tipo de dúvida, inclusive ter aulas com caras como Lisciel Franco, que te mostra que, com bom gosto e criatividade, dá pra tirar som com qualquer coisa." conta.

Investimento - Lisciel Franco também é músico e produtor há mais de duas décadas. Além de produzir artistas como Detonautas, Móbile Drink, Teóricos dos Antigos Astronautas, Renovier e Fusão a Frio, constrói equipamentos vintage à mão, ministra aulas sobre produção musical e possui um canal no Youtube com quase 40 mil inscritos, onde dá dicas de produção, mixagem, posicionamento de microfones e utilização de efeitos, além de discutir diversos assuntos ligados ao mundo da gravação em estúdio, utilização de equipamentos digitais, analógios e outros. "Eu diria que o mínimo que alguém precisa ter para começar seu homestudio seria um par de monitores, um microfone Shure SM57, uma interface de áudio e uma DAW original, nunca pirata", avisa.

Roberto Torao, outro músico que se aventurou na produção musical, gravou nomes como os guitarristas Luciano Magno, Fred Andrade, Cauê Cury, Alexandre Bicudo e a banda Terra Prima, entre outros. Ele vai além: "Muitos estúdios fecharam com a popularização dos homestudios nos últimos anos. Boa parte dos álbuns de artistas famosos hoje em dia são gravados em casa, com alguma maquiagem em um grande estúdio", conta. Para ele, o investimento inicial varia muito, mas define o valor em algo por volta de R$ 10 a 15 mil - imaginando que vai se partir do zero. "Será preciso comprar um bom computador, uma interface de áudio, microfones, headphone e monitores de referência. Apesar de parecer muito, acredito que o valor está próximo do ideal. Mas claro, você sempre pode gastar um pouco menos, principalmente se já tiver o computador", revela.

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Roberto Torao

Há alguns anos, Torao também criou seu canal no Youtube que conta atualmente com cerca de 66,5 mil inscritos. No espaço, ele dá dicas de homestudio, aulas de guitarra e testa equipamentos, como amplificadores valvulados, pedais e processadores de efeitos. "Será preciso ainda comprar uma DAW, que é quem grava, edita, mixa e masteriza o seu trabalho. Existem várias no mercado com diferentes preços e propostas, e o que varia é o gosto pessoal do usuário. Mas todas têm curva de aprendizado; não são fáceis de mexer e demandam muita dedicação. Eu utilizo o Cubase Professional 9.5 e sempre recomendo investir em software oficial".

Para quem está começando, Torao não acha necessário investir em plugins, pequenas ferramentas que implementam funcionalidades às DAWs. "A maioria dos softwares de gravação já conta nativamente com vários plugins, como compressores, reverbs, equalizadores e outros, que são o alicerce para quem está aprendendo a mexer", opina. Pensa que acabou? Que nada! "Costumo chamar muito a atenção para os cabos. Bons cabos também oneram bastante o custo, mas são fundamentais para a qualidade final do trabalho. Se você procura algo de qualidade, o investimento não é tão barato como pode parecer de início", conclui.

Dependendo do estilo musical, outros periféricos podem ser necessários. "Se você vai trabalhar com música eletrônica, por exemplo, um controlador Midi é essencial. Mas, como tudo hoje em dia, existem diversas alternativas, a partir de algumas centenas de reais até a casa dos milhares. E, dependendo da necessidade, até o seu tablet ou smartphone pode fazer essa função, bastando instalar um aplicativo", lembra Azula.

Mercado - Com o homestudio montado, é hora de escolher seu campo e começar a gerar na alta. "O conselho que eu dou para quem está começando é definir qual o objetivo, o que você quer produzir no seu homestudio e se manter focado nele, além de ter humildade e procurar sempre adquirir novos conhecimentos. O mercado de trabalho é imenso e você vai poder trabalhar na produção de diversas mídias - como vídeos para redes sociais, compor trilhas para séries, teatro e games, gravar bandas... É um universo muito amplo, vai depender do rumo de cada um", explica Torao.

"O homestudio te abre um leque grande de opções. Você pode optar pelo mercado publicitário e mergulhar de cabeça na criação de jingles e trilhas para rádio, televisão, cinema, etc. Dependendo de onde você mora isso pode ser muito interessante, pois tem todo um mercado publicitário específico que gira em torno do Carnaval, do São João e por aí vai", complementa Azula.

Segundo ele, existem várias formas de se trabalhar. "Hoje em dia existem duas formas de ganhar dinheiro com masterização e mixagem: por hora; que é como normalmente os estúdios fazem, ou por um valor acertado, que é como eu trabalho. Acho uma forma mais artística, pois o músico pode ir mudando alguns detalhes ao longo do processo. É um pouco mais caro, mas fica do jeito que o artista quer", revela. Jingles já são um caso a parte. "Tem jingle de R$ 500,00 a R$ 30 mil. Depende de quem está cantando, dos músicos participantes e de quem está produzindo. É aquele negócio: um BMW tem quatro rodas. E um Fusca também", brinca.

Antes de pensar em ganhar dinheiro, porém, Lisciel aconselha: "Grave seus amigos, grave muito, muitas músicas pra montar um portfólio. Depois pense em investir em equipamento, pois equipamento bom faz toda a diferença. Você só terá conhecimento e bom gosto quando conhecer coisa boa. Sem saber o que é bom não tem como, investimento é importante nos dois lados. Além disso, é fundamental respeitar o processo. No início estamos aprendendo, então é preciso deixar o ego de lado para não fazer o trabalho travar", conclui.

Confira algumas dicas disponíveis nos canais de Lisciel Franco e Roberto Torao:

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Sobre Iúri Moreira 455 Artigos
Jornalista, músico, fotógrafo, marido de Isabela, pai de Arthur, fã dos Beatles e do Iron Maiden. Geek e cinéfilo, também é viciado em seriados e games. Nas horas vagas, pode ser encontrado gravando no homestudio, mexendo na moto, cozinhando ou desmontando algum equipamento eletrônico.