De Abreu e Lima para a Laboratoria e o mundo da tecnologia

Laboratoria

A história de Juliana Augusta da Silva, 29 anos, poderia dar um filme. Ou servir de exemplo para tantas outras mulheres. Natural de Abreu e Lima, na Região Metropolitana do Recife, Juliana está se formando no mês que vem (novembro) com outras 59 mulheres na primeira turma de programadoras front-end no Brasil pela Laboratoria – startup social latinoamericana de formação e inclusão de mulheres no setor de tecnologia.

O centro de treinamento, localizado em São Paulo, selecionou em maio deste ano 60 mulheres, das 5,7 mil inscritas, para seu bootcamp. Ao final de seis meses de trabalho, as alunas vão apresentar suas capacidades para o mercado de tecnologia durante o Talent Fest, uma maratona de programação (hackathon) com duração de 36 horas nos dias 08 e 09 de novembro, no campus da ESPM TECH. A proposta é aproximar empresas que estejam interessadas em construir equipes mais diversas e inovadoras do trabalho realizado pela Laboratoria.

“Nasci em Abreu e Lima mas logo fui morar em uma cidadezinha do interior de Pernambuco chamada Solidão, com pouco mais de 5 mil habitantes, distante seis horas do Recife. Sempre tive o desejo de fazer algo na área de tecnologia, de ser programadora, mas por conta da mudança para o interior, acabei fazendo licenciatura em Matemática na faculdade de Afogados da Ingazeira, que era o que mais se assemelhava. Acabei me formando mais ou menos na época em que o Instituto Federal de Pernambuco (IFPE) chegou – tanto que minha formatura foi num sábado a noite e a prova no domingo de manhã. Mas passei, e comecei o curso de eletrônica”, lembra Juliana.

Ao final do curso, Juliana conheceu o atual marido e juntos foram morar em São Paulo. “Fiz estágio na área de eletrônica, mas ainda não era o que eu queria. Foi quando decidi fazer uma nova faculdade, em Ciência da Computação. Meu plano era estagiar para pagar o curso, mas descobri que estava grávida e acabei não sendo selecionada na empresa onde disputava uma vaga. Cursei apenas um semestre, pois quando meu filho nasceu descobrimos que ele tinha Síndrome de Down”, conta.

A história poderia ter terminado aí, mas não foi o que aconteceu. “Sem saber nada da doença, decidi deixar a carreira de lado e me dedicar integralmente ao meu filho. E assim foi, até março deste ano, quando assisti a uma reportagem falando sobre a Laboratoria, uma ONG que iria ensinar programação web para mulheres”.

Juliana precisou passar por um cursinho e uma prova para apresentar um pré-trabalho, que foi selecionado, e daí uma entrevista. “No final, ainda teve a pré-admissão, onde tivemos algumas aulas, e um desafio final, apresentado em duplas. No final de tudo, quando fui selecionada, foi que soube que tinha concorrido com outras 5,7 mil mulheres. Aquilo me deixou maravilhada, de superar tanta gente e passar. Tive a certeza de que havia algo em mim, embora nem soubesse o que era”, emociona-se.

Juliana (dir) no SAP Fórum Brasil

Destaque – A história de Juliana foi destaque no palco do SAP Fórum Brasil, realizado em São Paulo nos dias 11 e 12 de setembro, onde foi anunciada parceria da gigante alemã com a Laboratoria, com o intuito de diminuir a desigualdade de gênero no mercado de trabalho e criar uma fonte de talento feminino para o mercado de tecnologia. O programa contempla o ciclo completo: desde a formação, passando pela mentoria de executivos da companhia até a inserção no mercado de trabalho. Profissionais da SAP realizam visitas mensais para avaliar o andamento do curso e a evolução das alunas, além de promoverem palestras e orientações.

“Como umas das líderes mundiais de soluções de tecnologia, a SAP entende a importância estratégica da diversidade como fonte de inovação e tem forte protagonismo nessa esfera. Diminuir a desigualdade de gênero na tecnologia é uma causa compartilhada também pela Laboratoria”, afirmou a diretora de Comunicação e Responsabilidade Social da SAP Brasil Luciana Coen, durante o evento.

Hoje, a SAP possui duas mulheres em seu board global e cerca de 30% de seus colaboradores são mulheres. Fundada em 2014 no Peru, a Laboratoria hoje tem escritórios em Lima, Cidade do México e Santiago, no Chile, além de centros de treinamento em Guadalajara, no México, e em São Paulo. A ONG já contribuiu na formação de mais de 800 mulheres e inseriu 80% delas em mais de 200 empresas, com uma taxa de satisfação dos empregadores de 4,5 de um total de cinco.

Ao final dos seis meses de trabalho, as alunas vão participar do Talent Fest, um hackathon nos dias 08 e 09 de novembro. “O Talent Fest representa o encerramento do ciclo de formação da primeira geração de programadoras da Laboratoria. É um evento que reúne toda a comunidade em torno do talento de nossas alunas. Durante o Talent Fest, as alunas demonstram todas as suas habilidades e competências debruçando-se sobre desafios de programação reais propostos pelas empresas parceiras no evento”, explicou a diretora executiva da Laboratoria São Paulo, Regina Acher.

Dedicação – De acordo com Juliana, a turma é composta por mulheres de todas as idades: “Temos algumas alunas inclusive na faixa dos 45 anos, que estão tentando uma mudança na carreira. No curso, nós estudamos cinco horas diárias de segunda a sexta mais as horas adicionais, pois temos uma plataforma, chamada LMS, onde estão todos os conteúdos. É voltado para a programação web, então estudamos HTML5, CSS, Javascript, APIs, Banco de Dados (Firebase), entre outros. É um curso bem ágil, dividido em sprints, com apresentação de um trabalho no final, envolvendo tudo o que nós aprendemos. Já fizemos uma rede social, um validador de cartão de crédito, aplicativos, manipulamos dados e utilizamos mapas… A todo momento somos submetidas a um estresse positivo, como em um ambiente de trabalho”, detalha.

Juliana não esconde o carinho pelo grupo. “Para mim e as outras mulheres é uma oportunidade em um milhão, pois sabemos que o mercado é machista e as oportunidades para mulheres programadoras são muito reduzidas. O curso tem me ajudado bastante, pois não é um lugar onde sentamos para aprender ou criar códigos. Na Laboratoria também temos apoio psicológico para desenvolvermos nossas soft skills, que são as habilidades sócio-emocionais de como lidar com o outro, aprender a sermos organizadas, cumprir prazos, sermos curiosas, aprendermos sozinhas e resolvermos problemas”, revela.

Mas não é um curso fácil, e ela faz questão de frisar. “É preciso muito estudo e dedicação e isso é deixado claro desde o início, pois lá fora o mercado é feroz e sempre está se renovando. Então se você não tiver curiosidade e vontade de estar sempre aprendendo coisas novas, vai acabar se tornando um profissional obsoleto. Para minha vida, esse curso foi uma oportunidade gigantesca, pois agora posso sonhar com um emprego melhor, que me dê mais garantias. Se não fosse pela Laboratoria eu nunca teria tido a oportunidade de realizar o sonho de estudar programação. Hoje todas nós somos grandes talentos em tecnologia: passamos em uma seleção super disputada e dedicamos muito tempo de nossas vidas pois é isso que queremos: nossa chance de brilhar nesse mundo tecnológico”, conclui.

O Talent Fest acontece nos dias 08 e 09 de Novembro, na ESPM TECH, com kick-off às 09:00 do dia 08/11 e encerramento às 21:00 do dia 09/11. Organizações interessadas no evento podem entrar em contato com a Laboratoria através do e-mail analaura@laboratoria.la.

Iúri Moreira viajou para São Paulo (SP) a convite da SAP.

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Jornalista, músico, fotógrafo, marido de Isabela, pai de Arthur, fã dos Beatles e do Iron Maiden. Geek e cinéfilo, também é viciado em seriados e games. Nas horas vagas, pode ser encontrado gravando no homestudio, mexendo na moto, cozinhando ou desmontando algum equipamento eletrônico.

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