É preciso educar as mentes antes de ensinar as máquinas

mentes

Por Claudio Muruzábal, pesidente da SAP para América Latina e Caribe

A América Latina é uma região de mentores empreendedores. Nosso povo carrega o gene da inovação e, muitas vezes, converte desafios complexos em oportunidades de transformação e crescimento. Quando combinada com tecnologias emergentes, essa mentalidade inovadora que empreende tem potencial para transformar a região em uma força motriz, fortalecer indústrias e garantir trabalho relevante e impactos positivos na vida de muitas pessoas.

Agora é hora de agir. Muitas tecnologias emergentes já estão entre nós. A tecnologia é o maior agente de mudança no mundo moderno. Inteligência artificial, machinelearning, sistemas conversacionais e Internet das Coisas são realidade em todo o mundo desenvolvido e rapidamente permearão a América Latina e outras economias em crescimento.

Esses avanços se refletem no Índice de Evolução Digital 2017, conforme relatado pela Harvard Business Review. O estudo analisa o estado e a taxa de evolução digital em 60 países. México, Colômbia, Brasil e Bolívia são considerados “break out countries” que estão evoluindo rapidamente na direção da inovação generalizada orientada pelos recursos digitais. O Chile é um país de destaque, com a mais alta pontuação de digitalização e inovação.

À medida que chegam em nossas casas, nossas empresas e nossos governos, as novas tecnologias mudam a maneira de interagir e trabalhar, apresentando oportunidades de crescimento como região e desenvolvendo comunidades mais fortes. As novas tecnologias podem ajudar indivíduos e organizações a se tornarem mais eficientes e a produzirem resultados mais efetivos, que se traduzem em maior produtividade e crescimento econômico. No entanto, para conseguir isso, é crucial primeiro fornecer o treinamento adequado para que cada pessoa possa fazer o melhor uso das tecnologias mais recentes e realizar todo o seu potencial.

Educação é o único caminho para construir um futuro no qual a palavra ‘inteligente’ não seja apenas aplicada a máquinas, mas que continue descrevendo pessoas.

Por meio da educação apropriada podemos enriquecer as mentes das pessoas, em qualquer fase da vida, para garantir as habilidades que precisarão para trabalhar ao lado de tecnologias de automação, robótica ou qualquer forma de inteligência artificial que possam encontrar no local de trabalho. Devemos primeiro educar as mentes para depois ensinar as máquinas.

Como isso se aplica à América Latina, uma região que está madura para a inovação, mas tem um enorme déficit educacional?

Como desenvolver talentos em todas as fases da vida

Um recente estudo do Interamerican Development Bank (IDB) revelou que, apesar de um investimento médio de 5% do PIB em educação na América Latina (que está em pé de igualdade com regiões semelhantes), apenas 30% das crianças no terceiro e quarto ano realmente possuem o mínimo das habilidades críticas necessárias na era digital, tais como proficiência em matemática.

É preciso intervir em todos os níveis da educação. Seja primária, secundária ou universitária – que atualmente serve a menos de 10% da população –, precisamos ampliar os programas educacionais e prover os alunos com habilidades e ferramentas que garantirão que ninguém será deixado para trás. Preparar-se para empregos altamente qualificados de um futuro próximo implica desenvolver competências técnicas e interpessoais.

Governos e empresas privadas estão colaborando para reduzir o déficit educacional e capacitar a próxima geração da força de trabalho, mas também é preciso se concentrar na reciclagem e no desenvolvimento de novas habilidades para um local de trabalho digital em constante mudança.

Uma força de trabalho flexível, adaptável

Temos observado que, para ter sucesso na atual economia tecnologicamente avançada, é preciso ter sólidas competências adaptáveis. Considera-se também que, até agora, mais da metade das ocupações conhecidas é candidata à automação parcial baseada em tecnologia. Isso tem implicações importantes para os trabalhadores com, por exemplo, a necessidade de aprendizagem e reciclagem constante de habilidades para permanecerem flexíveis, relevantese produtivos. Reinventar-se é uma obrigação quando a carreira ou a função para a qual você estudou ou se especializou já não existe mais.

Com as políticas e programas corretos existentes na América Latina podemos garantir uma inovação eficaz e segura e compensar a mudança de cenário, uma preocupação de muitos que estudam o impacto das novas tecnologias no mercado de trabalho. Vale ressaltar que, nas economias em desenvolvimento como a da América Latina, o equilíbrio entre empregos perdidos e conquistados proveniente de mudanças transformacionais e tecnologias de automação parece ser favorável. O estudo “Jobs Lost, Jobs Gained” do McKinsey Global Institute prevê esse resultado favorável no curto e médio prazo em economias emergentes, devido à aceleração do crescimento na classe média.

Enquanto essas mudanças na força de trabalho são graduais (A McKinsey estima que até 2030 entre 3% e 14% da força de trabalho global terão que mudar de categoria profissional, dependendo da rapidez com que a automação for adotada), o crescimento tecnológico sempre é exponencial. Se esperarmos demais, não seremos capazes de acompanhar o ritmo. A capacidade da América Latina de se adaptar a mudanças é fundamental e oferece uma oportunidade única para acelerar o crescimento transformador e a produtividade por meio da adoção de novas tecnologias.

Inovação que muda o nosso mundo

Costuma-se dizer que a inovação tecnológica de uma região é refletida em seu nível de empreendedorismo. A natureza empreendedora da América Latina está bem representada por números de unicórnios e startups digitais bem sucedidas que ganharam relevância mundial.

Esses empreendedores e inovadores determinados têm grande oportunidade para criar e sustentar impactos sociais para a região por meio da tecnologia. Ao liderar com propósito, eles podem ajudar a resolver muitas das questões sociais prementes da região e contribuir para moldar o futuro que queremos viver.

No entanto, adotar uma mentalidade social nessa nova era digital não diz respeito apenas aos empreendedores da região. Requer liderança e participação, educação e aprendizagem para todos os níveis da sociedade.

À medida que novas tecnologias surgem, tornam-se “mais inteligentes” e assumem os postos de trabalho repetitivos e com alta demanda de mão de obra, teremos mais tempo para nos concentrar na inovação e nos conscientizar do nosso impacto e da nossa contribuição para famílias, comunidades, vilas e cidades, países e região. O futuro da nossa região depende de permitir que nossa força de trabalho confie na tecnologia e use suas competências cognitivas para gerar crescimento sustentável e promover um progresso social exponencial sem precedentes.

Artigo publicado originalmente no site www.weforum.org

 

Sobre Iúri Moreira 577 Artigos
Jornalista, músico, fotógrafo, marido de Isabela, pai de Arthur, fã dos Beatles e do Iron Maiden. Geek e cinéfilo, também é viciado em seriados e games. Nas horas vagas, pode ser encontrado gravando no homestudio, mexendo na moto, cozinhando ou desmontando algum equipamento eletrônico.

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